“O Inep que a sociedade precisa”: entrevista a José Carlos Rothen

Em um momento delicado da história do Inep, em que sua autonomia e a sua missão parecem estar ameaçadas pelo projeto de criação de um instituto de avaliação da educação superior, o Insaes (leia mais sobre isso aqui e aqui), os Servidores do Inep continuam mobilizados e promovendo o debate aberto e qualificado com representantes da sociedade brasileira envolvidos na luta pela educação brasileira de qualidade.

O filósofo José Carlos Rothen é o sexto entrevistado da série “O Inep que a sociedade precisa”. Professor adjunto da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e vinculado ao Departamento de Educação, Rothen desenvolve pesquisas principalmente sobre políticas de educação superior, história da educação superior, avaliação e regulação da educação superior, além de realizar estudos sobre imprensa educacional, com destaque à Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (RBEP/Inep) e a outras revistas educacionais nas décadas de 1950 e 1960.

Na entrevista, Rothen enfatiza a necessidade de o Inep estudar e explorar, em profundidade, os dados e os índices que produz e, assim, melhor contribuir para se pensar educação no Brasil. Ao reconhecer a competência do Inep em realizar avaliações educacionais, o filósofo ressalta que a centralidade assumida pelas avaliações externas pode colocar em segundo plano o trabalho de pesquisa que deveria ser executado pelo Instituto. Rothen indica que a autonomia do Inep é fundamental, especialmente para garantir o espaço da pesquisa em um instituto concebido coletivamente por aqueles que acreditam na relevância do Inep para a melhoria da educação brasileira.

Confira a entrevista completa abaixo.

 

José Carlos Rothen (Foto do link: http://bit.ly/1JoJZca)

Como avalia a atuação do Inep nos tempos recentes?

A história do Inep foi marcada por três tipos de ações: 1) armazenar a documentação da educação brasileira, 2) promover investigações sobre a educação; 3) implantar políticas públicas. A terceira tarefa é que normalmente garantiu espaço nos diversos governos para a realização das outras tarefas. Atualmente a avaliação da educação é a política pública que é de sua responsabilidade. A avaliação da educação, a partir do governo Fernando Henrique, salvou o Instituto do seu fadado fim.

Considerando a educação básica e superior, o Inep tem relevante papel em aplicar provas que permitam que se tenha algum tipo de avaliação das Instituições Escolares. Na Educação Superior além de aplicar provas realiza, ainda, avaliações in loco. Realizar avaliações é a sua virtude e a sua limitação. Virtude por levantar inúmeros dados com os exames aplicados e com questionários que os acompanham. Limitação por haver uma armadilha montada com a excessiva valorização pelos órgãos governamentais e pela sociedade dos resultados das “provas” e dos índices delas decorrentes. A crescente competência do Inep na elaboração e aplicações dos exames pode levar a compreensão equivocada de que esta é a sua função exclusiva.

O terceiro tipo de ação é que permitiu desde os primeiros anos a existência do Inep. Uma das suas primeiras funções durante o período Vargas foi realizar avaliações psicológicas para a contratação de servidores públicos para o antigo Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP). Pensando o Inep como uma pessoa, é como dizer que Machado de Assis para viver era um burocrata, mas a sua atividade fim era a literatura. Sem ser burocrata.

Fazendo um paralelo do Inep com Machado de Assis, podemos dizer que a atividade burocrática desenvolvida pelo autor era o seu ganha pão, enquanto a literatura era o seu sentido de vida; a implantação da políticas públicas é o ganha pão do Instituto, enquanto ser fonte de informação/documentação e local para a discussão das políticas educacionais seria o seu sentido de vida.

 

Qual deve ser o espaço para a pesquisa no Inep? Como ela poderia contribuir para o Instituto cumprir sua missão de subsidiar a formulação políticas públicas educacionais e avaliar a Educação brasileira?

O Inep conta atualmente com um grande banco de dados resultante das avaliações realizadas nas últimas décadas, contudo é necessário dar um passo à frente: utilizar esses dados para compreender a evolução da educação brasileira. Infelizmente o que se tem visibilidade das ações do Inep são os resultados das avaliações e os índices decorrentes delas. Parece que o Inep está preso na armadilha de que avaliar é aplicar uma prova. Entendo que provas podem dar muitas informações, mas podem acarretar em ações indesejáveis. Como dar este passo a frente? Entendo que falta ao Inep um projeto de um Instituto de Pesquisas Educacionais, que compreenda que a sua vocação não é exclusivamente a de implantar políticas públicas, mas sim de estudá-las.

O leitor deve estar se perguntando: quem elaboraria este Projeto? Voltemos à história do Inep para responder a pergunta. No primeiro momento foi o seu idealizador Lourenço Filho, depois foi Anísio Teixeira. Quem eram eles? Eram pessoas que tinham um projeto de escola e circulavam bem pelos bastidores do poder. Sabiam aproveitar as brechas para efetivamente implantar uma proposta. O projeto Inep não foi um projeto do Presidente da República, ou de algum ministro da educação, mas sim de pessoas que acreditavam que o Instituto poderia contribuir para a educação brasileira. Hoje quem faria este projeto? A história do Inep diz que seria o próprio Inep, o seu presidente? Os seus servidores? Aqueles que acreditam que o Inep pode dar alguma contribuição…

O Inep é marcado, na sua tradição, como um órgão que estabelece parcerias e intercâmbios com a comunidade acadêmica. Esta foi a sua grande marca e deve ser mantido. Para estabelecer esse diálogo, é necessário que o Inep tenha o seu núcleo de pesquisa; caso contrário, poderá trazer a comunidade acadêmica para dentro dos seus muros, como faz atualmente, mas não estabelecer um diálogo.

 

Qual deve ser o papel do Inep na implementação do Plano Nacional de Educação?

Como o Inep se especializou em avaliação, a sua contribuição para o Plano Nacional de Educação é avaliar a sua implantação, mas avaliação não é apenas aplicar provas. Entendo que um papel importantíssimo que o Inep pode exercer é na elaboração de um Projeto de Acompanhamento do Plano Nacional de Educação que vá além de um monitoramento por Índices. Lembrando de Anísio Teixeira, que dá nome ao Instituto, este é um momento de ser propositivo. Os órgãos governamentais estão acostumados a receber do Inep índices, é hora do Inep continuar a realizar a sua história e propor o seu projeto.

 

Em sua opinião, é importante assegurar autonomia ao Inep? Se sim, qual seria essa autonomia e o que seria necessário para garanti-la?

A autonomia é fundamental para que o Inep possa realizar a sua vocação de documentar e de realizar pesquisas, para que não fique refém da implantação de políticas públicas. Contudo, autonomia não se ganha, se conquista. A autonomia do Inep se dará no momento em que ele tiver um projeto de um Instituto de Pesquisas Educacionais, como tinha Anísio Teixeira.

 

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1 comentário

Arquivado em Entrevistas "O Inep que a sociedade precisa"

Uma resposta para ““O Inep que a sociedade precisa”: entrevista a José Carlos Rothen

  1. Carla

    Como historiadora da educação tenho pensamento semelhante ao Rothen sobre o Inep voltar a ser um Instituto de Pesquisas Educacionais como o seu “sentido de vida”. Para tanto, seu corpo técnico deve ter espaço, autonomia, disposição e motivação para atuar. Enquanto os dirigentes vontade política de enfrentamento saudável para concretizar novamente esse “sentido de vida”.
    Parabéns à equipe que vem realizando as entrevistas!

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