“O Inep que a sociedade precisa”: entrevista a Carlos Roberto Jamil Cury

Em um momento em que o Inep vê sua autonomia e sua missão ameaçadas pelo projeto de criação de um instituto de avaliação da educação superior, o Insaes (leia mais sobre isso aquiaqui e aqui), os Servidores do Inep seguem mobilizados e promovendo um debate aberto e qualificado com representantes da sociedade brasileira envolvidos na defesa do direito de todos à educação de qualidade.

Oitavo entrevistado da série “O Inep que a sociedade precisa”, Carlos Roberto Jamil Cury é filósofo, mestre e doutor em Educação, com estudos pós-doutorais junto à Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo, à Universidade de Paris, à École des Hauts Études en Sciences Sociales e à Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professor titular aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, da qual é professor emérito, e docente da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Professor Cury integrou o Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais, o Conselho Nacional de Educação e foi Presidente da Capes. É membro Comissão de Educação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do Conselho Superior da Capes. Tem pesquisado principalmente sobre política e legislação educacionais e educação de jovens e adultos.

Nessa entrevista, o professor Cury sublinha a importância do Inep na produção e disponibilização de dados essenciais na realização de pesquisas e na formulação e na implementação de políticas educacionais. Ao lado disso, ele aponta a necessidade de um maior empenho institucional para garantir análises mais aprofundadas desses dados, ao mesmo tempo em que percebe o Instituto muito envolvido no desenvolvimento e realização de exames e avaliações, especialmente o Enem. Em sua opinião, o Inep deve atuar como um indutor de pesquisas, seja por meio da articulação com a comunidade científica, seja pela mobilização de seus próprios pesquisadores. O professor considera o Inep um órgão de Estado para o qual é indispensável assegurar autonomia e, com isso, um distanciamento crítico das políticas de governo.

Carlos Roberto Jamil Cury (foto: Editora Autêntica)

Carlos Roberto Jamil Cury (foto: Editora Autêntica)

Como você avalia a atuação do Inep nos tempos recentes? 

A atuação do Inep em tempos recentes, especialmente pós-1996, tem um lado bastante significativo e importante para o conjunto da educação brasileira. Trata-se do acúmulo de dados estatísticos, hoje bastante disponíveis online, de cujo acervo, nós, pesquisadores temos nos apropriado e do qual muitos gestores poderiam se beneficiar em termos de planejamento educacional. Este é um lado transparente, luminoso, embora a dissecação dos dados ainda deva ser feita mediante demanda o que pode significar mais investimento da parte da agência. Nesse sentido, o Inep preserva sua configuração primeira na medida em que disponibiliza para as investigações seu acervo. Por outro lado, há que se registrar o grande volume de investimento em avaliações, sob responsabilidade da agência: responsabilidade dupla. A do peso que isto acarreta e da responsabilidade social que a acompanha a todas as pessoas lotadas na agência. Observe-se, por exemplo, a importância e o volume de trabalho demandado por tais avaliações, em especial a do Enem.

Qual deve ser o espaço para a pesquisa no Inep? Como ela poderia contribuir para o Instituto cumprir sua missão de subsidiar a formulação políticas públicas educacionais e avaliar a Educação brasileira?

De um lado, pela maior disponibilidade de dados desagregados e, de outro, a indução de pesquisas que poderiam ser levadas adiante por pesquisadores das universidades e também por pesquisadores do próprio Instituto. Afirmo isto porque a indução, em ambos os casos, permitiria um conjunto mais sistemático de pesquisas em torno de temas emergentes dos dados recebidos. O Inep deve ter um papel de catalisador, sendo um centro de criação e de estimulação de novas pesquisas por indução.

Qual deve ser o papel do Inep na implementação do Plano Nacional de Educação?

Quando se lê o conjunto da lei n. 13.005/2014, vê-se que o empenho por sua efetivação deverá sistêmico e hercúleo. Para dar apenas um exemplo: em que bases se farão as avaliações periódicas? Ora, tais bases foram uma das lacunas do atual PNE. Logicamente elas existem, mas aquilo que o PNE (2001-2011) trouxe, em termos de uma radiografia dos níveis, etapas e modalidades, desta vez não houve. Cumpre preencher esta lacuna. O Inep tem um lado de monitoramento do PNE que só ele possui: as estatísticas, as “grossas” hoje abertamente disponíveis e as “finas” que permitem uma maior aproximação do real.

Em sua opinião, é importante assegurar autonomia ao Inep? Se sim, qual seria essa autonomia e o que seria necessário para garanti-la?

Inep, Capes, CNPq, para mim, são como espaços suprapartidários. São órgãos de Estado e não de governos. Logicamente não há um maniqueísmo entre Estado e Governos, mas os governos passam. Por isso, entendo que a autonomia de tais órgãos deve se reger, simetricamente, ao que prevê o artigo 207 da Constituição para as universidades. A rigor, tais órgãos nasceram debaixo da teoria da “dupla administração”. Os governos pós-30 entendiam que não era possível gerir o Brasil em bases patrimonialistas. Daí a emersão de um segmento de tipo weberiano cuja autonomia indica não uma “separação” de uma gestão democrática, mas um distanciamento crítico como consta no artigo 37 da Constituição. Embora a garantia de uma autonomia desta natureza só se positive em um ordenamento jurídico, torna-se importante uma avaliação do Instituto em sua normatividade, interna, pelos seus membros e, externa, pela comunidade científica.

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