(re)lendo a mídia

Espaço destinado para divulgação de notícias,  reportagens, e conteúdos relacionados as atividades do INEP. Quando for do interesse dos servidores, as publicações serão analisadas e criticadas sob o ponto de vista dos servidores.

Quem são os “servidores do INEP”?

Aviso aos navegantes: o título acima não se refere ao nome deste blog e nem a nós, servidores deste órgão. Ele se refere, antes, ao curioso e inquietante emprego da expressão “servidores do Inep” por parte da imprensa nas últimas semanas. Quem seriam esses “servidores do Inep”? Alguém de nós se reconhece nessa referência tal como é feita pelos jornalistas? Haveria algum propósito nisso? Que efeitos tal referência produz na imagem do órgão?

São perguntas que talvez não saberemos responder. Pode existir uma distância considerável entre a nossa capacidade de fazer perguntas e as possibilidades de encontrarmos respostas plausíveis para elas. Mas as perguntas continuam tendo sua importância para motivar a reflexão para a qual – é preciso adiantar – ninguém se vale de teses conspiracionistas e nem se deixa levar por manias persecutórias. A ideia é, então, animar o debate, problematizando determinados modos de expressar que traduzem certa dificuldade de alguns órgãos de imprensa de fazerem jornalismo.

Mas vamos lá. Não partimos do zero. O mais importante já sabemos: nós, servidores do Inep – sem aspas – sabemos quem somos e parecemos estar bastante cientes de nossas obrigações e da nossa importância. Integramos um quadro de servidores concursados de um órgão de mais de 73 anos, que desenvolve pesquisas, estudos e avaliações cruciais para a compreensão da realidade educacional brasileira. Um trabalho indispensável para orientar a formulação e a execução de políticas públicas de educação.

Talvez em função de um processo histórico de internalização de modos de ver que fazem com que o servidor seja percebido como alguém naturalmente desprovido de competência técnica e de inciativa, poderia haver entre nós alguns que não pareciam perceber a importância estratégica de nosso trabalho. Prestavam um serviço primoroso e não se davam conta do seu alto valor. Mas os poucos que ainda poderiam se encontrar nessa condição reviram suas opiniões e passaram a reivindicar o devido reconhecimento e um plano de carreira digno desse nome, à altura do trabalho que fazemos. Daí a nossa perplexidade e a indignação diante do que a imprensa tem dito acerca dos “servidores do Inep”.

Quem seriam esses senhores? Seriam mesmo do Inep? São nossos colegas? Pessoas com as quais, na raiz etmológica do termo “companheiro”, compartilhamos o pão?

Essa criação midiática nos assombra. Ela aparece em sentenças como essas:

“… apurar as omissões dos funcionários públicos no episódio.” (O Globo, 13/01/10).

“… os técnicos responsáveis fizeram só comunicação verbal sobre os problemas.” (Folha de S. Paulo, 14/01/10).

“… apurar a responsabilidades dos funcionários do instituto pelas falhas.” (Folha de S. Paulo, 14/01/10).

Às vezes, a menção aos “servidores” é menos explícita:

“Uma auditoria interna do Inep (…) constatou falhas do próprio órgão na realização da prova cancelada em outubro.” (Folha de S. Paulo, 14/01/10).

Exemplos como esses se multiplicam, embora se saiba que, entre os servidores sem aspas, não há nenhum que tenha sido considerado responsável por qualquer “falha”. Pelo contrário: sabemos que os técnicos não se limitaram as fazer comunicações verbais, mas produziram mais de um relatório apontando os problemas.

Agora, quanto às responsabilidades dos outros “servidores’, não cabem especulações irresponsáveis. Sindicâncias, com os devidos contraditórios, deverão apurar devidamente e chegar às conclusões.

A imprensa deve – ou deveria – saber disso. Daí a nossa estranheza diante de ataques que, por um tempo, pareciam não querer cessar. E eles brotavam das maneira mais inusitadas:

“As reuniões ocorriam na sede do Minstério e não na do Inep, que funciona em prédio alugado, no setor comercial de Brasília.” (O Globo, 06/12/09).

O que se pretendia com tal afirmação? Indicar que não se pode fazer reunião em prédio alugado? Insinuar que um órgão situado em prédio que, além de alugado, está fora da Esplanada dos Ministérios, não deve ter prestígio? Sugerir uma correlação entre aluguel, localização de um prédio e eficiência do órgão?

Em uma reportagem de O Globo, publicada em 13/01/10, o Inep aparece como uma instituição capenga, claudicante, cheia de deficiências administrativas que, após as investigações, teria produzido um relatório de investigação superficial e “secreto”. Ao lado disso, é feita uma referência laudatória ao Cespe, “centro de referência em realização de provas e concursos”.

Ninguém aqui questiona a qualidade do Cespe, só não se entende o paralelo que a matéria sugere.

A matéria ainda informa que o Presidente do Inep “insistiu que o Inep precisa profissionalizar seus quadros”.

Em 14/01/10, sai publicada outra entrevista do Ministro da Educação à Folha de S. Paulo. O jornalista fez a seguinte provocação: “Professores dizem que o Enem foi uma bagunça geral”. A isso o Ministro teria respondido: “O INEP sofreu um trauma com o furto, que persiste e afeta o desempenho dos servidores.”

Nós servidores do Inep, sem aspas, sabemos ser profissionais de verdade. E, bem por isso, somos os primeiros a concordar que todo e qualquer órgão que visa alcançar ou manter a excelência precisa investir na profissionalização e no aprimoramento permanente do seu quadro. Não por acaso, mesmo que muitos não pareçam perceber, o Inep já possui quadros altamente qualificados, profissionais dignos do nome e que, apesar disso, vale repetir, não contam com o respaldo de um plano de carreira à altura.

De todo modo, em virtude dos já enormes e crescentes desafios que o Inep tem diante de si, é legítimo esperar que os servidores, sem aspas, possam contar com uma política de recursos humanos cada vez mais ousada, atenta às necessidades de aperfeiçoar nosso quadro, para que possamos honrar nossos compromissos institucionais e projetar a nossa instituição no campo dos estudos, das pesquisas e das avaliações da educação brasileira.

Não sabemos o que entende o jornalista por “bagunça”. Entrevistas mal preparadas e apurações jornalísticas sofríveis seriam “bagunçadas”? A imprensa tem um papel central na consolidação dos modelos democrático e, por isso, é fundamental que se atente para as suas deficiências, saiba acolher as críticas da sociedade, garanta o pluralismo, fiscalize o poder público e sempre melhor informe a cidadania.

Ademais, muito de nós teremos dificuldades em crer que o Ministro tenha respondido que nós os servidores sem aspas teríamos sofrido um “trauma” que teria afetado o nosso desempenho. Se disse algo assim, a quem estaria se referindo? Não a nós, servidores sem aspas, a quem ele tanto deve. Afinal, sem questionar, sem oferecer resistências, sem abrir mão de nossas responsabilidades e negligenciar nossas obrigações em outras áreas de atuação do órgão, colocamo-nos inteiramente à disposição, alteramos toda a nossa rotina, ritmos e prazos para atender ao seu pedido para criar um Novo Enem, modificar o Exame de Certificação de Ensino Médio – o Encceja –, realizar, corrigir e analisar as provas em tempo recorde.

Aliás, todo esse esforço coletivo a imprensa também parece não ter visto. Ela tem apresentado dificuldade em reconhecer a importância deste órgão. Deve ser por isso que não parece não ter percebido que, quando o Ministro, em entrevista a O Globo, publicada em 12/01/10, disse que “Nós criamos no Brasil, talvez, o que podemos chamar de melhor sistema de avaliação educacional do mundo”, ele só poderia estar se referindo ao Inep.

Do Ministro, de quem nós temos comprovado ser valiosos aliados, nós servidores sem aspas esperamos reconhecimento. Estamos confiantes de que poderá mostrá-lo, apoiando nosso pleito de maneira firme, transparente e inequívoca, e fazendo gestões junto ao Ministério do Planejamento e à Casa Civil.

Da imprensa, esperamos melhores apurações e um emprego mais cuidadoso dos termos de que se vale. E não só: os profissionais da imprensa teriam que apresentar um olhar mais atento e livre da ânsia por escândalos. Quem sabe assim, ela poderá passar a relatar e analisar da maneira mais precisa e acurada a realidade que tem diante de si. Superará a tentação de buscar demolir irresponsavelmente reputações coletivamente construídas. E passará a distinguir melhor aqueles e aquelas que se empenham na consolidação institucional de órgãos que são patrimônios da sociedade brasileira.

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7 Respostas para “(re)lendo a mídia

  1. Anonimo da Silva

    Muito bom este texto, porque ele consegue diferenciar de maneira clara servidores de carreira e diretores, que em sua maioria, caem de paraquedas no orgao.

  2. ana magna

    O texto Quem são “os servidores do Inep” ficou muito legal. Se queremos consolidar uma outra imagem do Instituto então teremos que forjar isso nós mesmos. Creio que a hora é agora!

  3. Rafael M

    Parabéns pela clareza e sinceridade nos comentários. Não há outra palavra que descreva a posição da mídia em situações como essa que não ‘vergonhosa’. Espero poder ter acesso a mais informações como as que pude ler aqui.

  4. Leonardo V

    Um texto que demonstra com clareza a verdadeira situação vivida por muitos servidores e órgãos em que trabalham. É preciso que tenhamos mais pessoas dispostar a lutar por uma carreira melhor e condizente com os desafios que estão postos. Parabéns!!!!

  5. Teresa

    Comunicado aos Servidores Inep________________________________________
    De: Sergio Antonio Martins Carneiro [sergio.carneiro@planejamento.gov.br]
    Enviado: quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010 14:51
    Para: Teresa Maria Abath Pereira
    Assunto: RES: AUXÍLIO ALIMENTAÇÃO

    Prezada Teresa
    Desculpe a demora para responder.
    A Portaria com o valor do aumento, já saiu desta Secretaria e encontra-se na Secretaria Executiva. Previsão de publicação é até o início da próxima semana.
    Sérgio

    —–Mensagem original—–
    De: Teresa Maria Abath Pereira [mailto:abath@inep.gov.br]
    Enviada em: segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 09:47
    Para: josemilton.costa@uol.com.br; geral@sindsep-df.com.br
    Cc: dep.magela@camara.gov.br; Gabinete da SRH; Eliane Aparecida da Cruz;
    Delfina Augusta Arrais de Azevedo; Sergio Antonio Martins Carneiro; Luiz
    Roberto Moselli; Gabinete da SRH
    Assunto: AUXÍLIO ALIMENTAÇÃO

    Prezados e Prezadas,

    Sou Delegada Sindical do Inep e preciso de uma posição concreta para passar para os servidores do Inep que terão Assembleia amanhã, qual a situação real do reajuste do Auxílio alimentação?
    Obrigada

    Teresa Abath
    Técnica em Assuntos Educacionais
    Assistente CIBEC
    Titular do PVS no INEP
    Delegada Sindical/INEP
    2022-8955 ou 81383335
    abath@inep.gov.br
    abath12@yahoo.com.br

  6. Roberto

    Muito boa essa reflexão!
    E que estranha a imprensa temos!
    Quando se tratava de tentar conspurcar a imagem do órgão, atacaram seus servidores, sem fazer qualquer apuração.
    Agora que os servidores legitimamente se mobilizam em favor do fortalecimento e da consolidação institucional, por meio da luta por um plano de carreira digno, essa imprensa não publica nem uma palavra!
    Como explicar esse estranho e repentino desinteresse?
    A imprensa vai ficar em silêncio e deixar o MPOG tornar impossível a permanência dos servidores no INEP???
    Nossos colegas na Capes e nas carreiras de Ciência e Tecnologia ganham, hoje, pelo menos 50% a mais do nós!
    Que servidor bem qualificado vai conseguir continuar em um órgão que não se empenha para ter um plano de carreira atrativo?
    Estamos a um passo de um apagão no Inep!!!
    Enquanto isso, a imprensa fica preocupada com o apagão na Venezuela…

  7. Guilherme Veiga Rios

    Posto aqui este comentário em um momento bastante posterior à data em que esse texto foi escrito. Agora que estamos em greve, a imprensa oficiosa, com uma única rara exceção (CB), nos ignora impassivelmente. Fala de alteração na data do Enem e oculta os seres humanos que o tornam possível e que estão lutando por reconhecimento, não só material, mas também moral.
    Este nosso blog é um dos nossos canais de luta e jamais poderemos abrir mão dele. Assim como na Petrobrás, estamos mostrando aqui os fatos que a imprensa se recusa a mostrar.
    Pessoal, continuemos firme e não vamos sair da greve enquanto não tivermos uma proposta condigna com o nosso Inep.

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