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O ato de ler em foco

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O ato de ler em foco

Joana Darc Ribeiro (Daeb/Inep)

<joana.ribeiro@inep.gov.br>


“Lemos para fazer perguntas”, “Pode-se transformar um lugar ao ler nele”, “Ler na cama abre e fecha o mundo ao nosso redor”, “Todo leitor inventa leituras” são algumas das afirmações sobre o ato de ler que guiam o leitor de Uma história da leitura, de Alberto Manguel, livro publicado no Brasil em 1997 pela Companhia das Letras, com tradução de Pedro Maia Soares.  Em 403 páginas, que misturam narração, história e reflexão, o ensaísta argentino, naturalizado cidadão canadense, apresenta uma vasta galeria de leitores anônimos e ilustres, escritores e personagens leitores; e várias cenas de leitura em que se representam os atos de ler, os espaços públicos e privados da leitura, as funções e os efeitos da leitura sobre o indivíduo e a sociedade. Essas representações não se restringem ao universo da palavra, como nos romances, diários e cartas, mas também se imortalizam nas imagens, como na pintura e na fotografia.

A primeira frase seria emblemática da concepção de leitura que encontra eco em Franz Kafka, o qual não apenas define o ato de ler e sua função como incessante busca de respostas, mas também escreve motivado por essa busca. O significado da frase serviria igualmente para “definir” o leitor dos textos kafkianos. Ao lermos Metamorfose, O Processo, O Castelo, A muralha da China ou Cartas ao meu pai, são com perguntas, normalmente sem respostas, que nos deparamos e nos inquietamos diante das banais e, ao mesmo tempo, insólitas situações vividas pelos seus personagens. Nesse sentido, o ato de ler como pergunta aponta para uma relação do leitor com o texto não como mero passatempo ou como apaziguadora das dores e frustrações humanas. Ao contrário, a leitura que suscita perguntas à medida que se avança no universo criado com palavras, como o de Kafka, provocaria constante inquietação, conforme acreditava o escritor tcheco: “No final das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz […]? Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito”.

A segunda e a terceira frases são contextualizadas no capítulo “Leitura na intimidade”. Nele Manguel traça alguns itinerários de leitores e a relação do ato de ler com os espaços da intimidade, como o quarto. Entre esses leitores, incluem-se o próprio ensaísta e Marcel Proust. Aqui, embora não se deixe de ler para fazer perguntas, como defendia Kafka, pode-se ler para ser feliz, para transformar ou fugir do lugar onde se vive temporária ou permanentemente.

A experiência de superar a realidade adversa ou minimizar o sofrimento durante a convalescença – como nas crises de asma do autor de Em busca do tempo perdido – e de instituir o espaço da privacidade por meio da leitura é característica desses leitores e espelha uma condição própria da experiência moderna, tão bem descrita por Walter Benjamim em “O narrador”. Na perspectiva do ensaísta alemão, a experiência na modernidade deixa de se constituir por meio da tradição oral e passa a ser mediada pelos livros. A leitura de romances, gênero que, entre outros aspectos, explora a representação da vida privada, seria uma das principais leituras a estabelecer a referida mediação.

Em Uma história da leitura, um dos “depoimentos” do autor sobre sua relação com os livros aponta para essa particularidade da experiência moderna. É no espaço da intimidade que a formação do leitor Manguel se confunde com a própria vida, numa bela rememoração da maneira com que se relacionava com o mundo de dentro e de fora dos livros, lidos preferencialmente na cama:

Eu também leio na cama. Na longa sucessão de camas em que passei as noites da minha infância, em quartos de hotel estranhos onde as luzes dos carros que passavam misteriosamente o teto, em casas cujos odores e sons não me eram familiares, em chalés de verão grudentos de borrifos do mar, ou onde o ar da montanha era tão seco que colocavam uma bacia de água fervendo com eucalipto do meu lado para me ajudar a respirar, a combinação de cama e livro concedia-me uma espécie de lar ao qual eu sabia que podia voltar noite após noite, sob qualquer céu. Ninguém me chamaria e pediria para fazer isso ou aquilo; meu corpo não precisava de nada, imóvel sob os lençóis. O que acontecia, acontecia no livro, e eu era o narrador. A vida acontecia porque eu virava as páginas. Acho que não posso me lembrar de nenhuma alegria mais compreensiva do que a de chegar às últimas páginas e por o livro de lado, para  que o final ficasse pelo menos para o dia seguinte, e  mergulhar no travesseiro com a sensação e ter realmente parado o tempo.

Na passagem acima, destaca-se o poder da leitura sobre o leitor, de conceder-lhe “uma espécie de lar” e proporcionar-lhe uma “alegria compreensiva”. Estes e outros poderes, alguns não tão elevados, também podem estar no leitor. Na segunda parte de Uma história da leitura, é justamente sobre “Os poderes do leitor” que Manguel discorre. Entre eles, estão o do autoritarismo e fanatismo de leitores que “impedem outros de aprender a ler e “que  decidem o que pode ou não ser lido” – como ocorre em regimes ditatoriais – e o de inventar leituras, iluminando ou subvertendo o texto por meio da interpretação. Isso porque:

O mesmo ato que pode dar vida ao texto, extrair suas revelações, multiplicar seus significados, espelhar nele o passado, o presente  e as   possibilidades   do   futuro   pode  também   destruir  ou   tentar destruir  a  página  viva. Todo leitor inventa leituras, o que  não é a  mesma  coisa  que mentir, mas  todo leitor também pode mentir, declarando  obstinadamente que o texto  serve a  uma doutrina, a uma lei arbitrária, a uma vantagem  particular aos direitos dos donos de escravos ou à autoridade de tiranos.

Este é um dos poderes perigosos a que o leitor – que pode ler para fazer perguntas, para transformar o lugar em que vive, e para inventar leituras – está sujeito a exercer, mas que deve estar atento para não colocá-lo em prática.

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